Em seus trabalhos mais recentes, principalmente no
livro “Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade”, Michael
Apple – educador e sociólogo da educação – tem analisado os
movimentos neoliberais e conservadores que pretendem reconstruir e direcionar a
educação conforme seus interesses políticos e, principalmente, econômicos,
utilizando-se para isso de artifícios prejudiciais ao processo educacional e à sociedade. Nesse estudo, Apple
(2003) tem pesquisado e conceituado sobre a ascensão de um movimento político
que ele designa como a “Nova Direita” e sobre as tradições e discursos políticos
que daí derivam e que constituem o imaginário coletivo nestas questões.Sua análise, apesar de se restringir especificamente ao campo educacional dos Estados Unidos, também pode ser aplicada à realidade de outros países, como o Brasil, pois permite que se entenda aspectos da atual conjuntura político-partidária, na qual os elementos argumentativos do discurso eleitoreiro e populista da pseudoesquerda não podem – nem têm a intenção – de se efetivarem na realidade concreta das práticas políticas e econômicas, a não ser quando compactuam com os interesses destas. Ou seja, as práticas no exercício do poder político – diferentemente do discurso eleitoreiro de oposição – devem ser direcionadas à direita e condescender com suas diretrizes governamentais, justamente em função de seu comprometimento com o moderno Estado capitalista que é, por essência, “o comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa” (MARX; ENGELS, 1993, p. 68).
Para Michael Apple, a “Nova Direita” trata-se de um conjunto de grupos políticos, empresariais e membros da sociedade civil que formam uma aliança entre Neoliberais, Neoconservadores, Populistas autoritários e a Nova classe média. Essa realidade política, a partir de alianças conceituais, é na verdade a nova constituição e concretização ideológicas do bloco hegemônico, cuja união é estratégica e tem por interesse garantir a dominação e a manutenção do status Quo de seus membros.
Nesse sentido, afirma Apple, os Neoliberais sempre buscam a introdução da noção de mercado em todas as esferas da vida social e, assim sendo, tendem a executar uma ruptura entre a economia e as realidades sociais, isto é, executam a destruição metódica (sucateamento) de todas as instituições coletivas e públicas capazes de interpor obstáculo à lógica do livre mercado. A ideia básica, no que diz respeito à educação, é a de que somente pela introdução da livre competição entre as escolas e uma maior produtividade destas – minimização da despesas e maximização dos lucros –, assim como o reconhecimento meritocrático entre os indivíduos, é que a educação superará o seu sucateamento público e, consequentemente, a crise.
Há também os Neoconservadores que buscam um embasamento referente a manutenção e perpetuação de um passado considerado organizado e perfeito. Referem-se à uma época em que os valores tradicionais, a ética e a moral eram transmitidos e aceitos sem problemas, e a escola ensinava o verdadeiro, único e adequado saber. O objetivo deste grupo é o estabelecimento da ordem, da disciplina e da hierarquização de padrões a serem seguidos por todos, difundidos e enfatizados no âmbito escolar.
Já os Populistas autoritários, conforme Apple, são os fundamentalistas cristãos que querem impor, para a sociedade em geral, sua visão religiosa conservadora como verdade absoluta e inquestionável, estabelecendo seus dogmas e alegando que (seu) Deus deve estar presente e acima de todas as instituições, pois a autoridade religiosa deve sobrepor-se à política pública. Para esse segmento, a escola é uma das instâncias responsáveis por difundir a fé com base nos mandamentos e na tradição bíblica como norma de conduta e alicerce do conhecimento.
Por último, a nova classe média (profissional) é o grupo que adequa os conhecimentos técnicos de gerenciamento e faz a avaliação das práticas necessárias a manutenção da aliança dominante. Estabelecem o consenso e os clichês que devem ser aceitos em torno da lógica do mercado em todas as esferas sociais, enfatizam a valoração das tradições do passado e a manutenção destas, exaltam suas perspectivas religiosas conservadoras como comprometimento que deva ser geral. Esse grupo participa da “nova direita” em função de interesses pessoais e procurando garantir a sua mobilidade social. Para Apple, a nova classe média tem o interesse na manutenção das desigualdades, pois suas credencias, privilégios e participação como classe em ascensão só têm valor quanto menos pessoas fizerem parte deste processo.
Apesar desses quatros grupos forjarem uma aliança estratégica, esta não tende a formar um bloco coeso e, assim sendo, não está garantida para sempre, pois depende de constante rearticulação e renovação de peças chaves. Ou seja, mesmo que haja uma trégua temporária para garantir o status quo do grupo, este é formado por uma aliança em que há contradições de interesses políticos e econômicos, o que acaba gerando crises internas que repercutem externamente como se fossem uma vontade ou necessidade geral. Estas crises são minimizadas, historicamente, através de uma costura de pactos e acordos por meio de medidas e ações que beneficiam os interesses comuns do grupo (APPLE, 2003; GANDIN, 2011).
A articulação da “nova direita” vem produzindo o que Michael Apple chama de “modernização conservadora”, isto é, um processo que perpetua a ideia de que se está “modernizando” e valorizando o social a partir de políticas públicas. Essa “modernização conservadora” é equivalente ao “reformismo” que, segundo Mészaros (2008), baseia-se na tentativa de postular uma mudança gradual e paliativa em determinados fenômenos ou aspectos da sociedade, através da qual apenas se ajustam “defeitos específicos” – sem nenhuma mudança significativa na base – de forma a modificar ou remover elementos sobre os quais as reivindicações possam ser articuladas. Logo, essa “modernização” não está direcionada a tornar o social mais justo e igualitário, mas sim para amenizar as insatisfações e, por conseguinte, amortecer as lutas de classes, o que garante a conservação e reprodução do status quo do bloco dominante.
Portanto, há um processo previsível e inevitável de alianças dentro da atual conjuntura sociopolítica, da qual fazem parte os representantes do governo – independente de qual ideologia partidária sejam – que formam o que Michael Apple designa de a “Nova Direita”. Infere-se, portanto, que não existem partidos efetivamente de esquerda – com propostas reais e libertárias – no comando das esferas governistas e em oposição ao modo de produção capitalista e às desigualdades sociais que ele engendra. O que existe são apenas "discursos de esquerda" que agradam e constituem o imaginário de quem acredita na possibilidade de sua efetivação a partir de uma vitória no processo eleitoral. Uma vez no poder, esses discursos se esvaecem no ar, pois não têm força concreta e funcional, mas apenas discursiva e dissimuladora.
Nesse sentido, o lema governamental e vazio da “pátria educadora”, mesmo sem um conjunto de leis e ações necessárias que possam garantir sua concretização, está inserido no imaginário das representações cotidianas como um “discurso de esquerda”, mas na realidade compactua com os interesses dominantes e, na prática, cumpre o seu dever. Segundo Gandin (2011), o bloco dominante precisa estabelecer o seu discurso como aquele que faz sentido e agrada; isto é, um discurso que não é percebido a partir de seus elementos dominantes e contraditórios, mas sim como uma forma natural de pensar e proceder. Em outros termos, a “pátria” (ou Estado capitalista) – gerida por uma aliança de interesses comuns – não tem a intenção de ser “educadora” no sentido de fornecer ou garantir uma educação com perspectivas de emancipação e transformação social, mas sim uma educação que possa, ao mesmo tempo, afiançar o capital privado e garantir a manutenção deste modelo de sociedade.
A mercantilização da educação, na qual os interesses neoliberais, partidários e econômicos de grandes setores empresariais prevalecem, tende a sucatear a educação pública em favor de uma lógica do livre comércio e, assim, reduz a educação a uma mera mercadoria, e a instituição educacional a um grande mercado, cuja dinâmica fabril deve produzir a nova classe média – profissionais qualificados e intelectuais necessários à manutenção da máquina capitalista –, onde quem não se adapta aos padrões pré-estabelecidos é rapidamente descartado. Em outras palavras, a lógica do processo educacional da “nova direita” não intenta promover transformações na ordem social, econômica e política; mas, pelo contrário, tende a um modelo basicamente taylorista que leva o educando à alienação (APPLE, 2003). Em síntese, e como destaca Saviani (1991, 2001), a aparente crise na educação é, na verdade, o êxito de um projeto político; isto é, aquilo que se pensa ser uma disfunção é, de fato, a própria função.
No entanto, mais do que entender como a “nova direita” vem operando, Apple enfatiza também o aspecto contraditório da educação, e a escola como um espaço de luta de classes. E, assim sendo, é preciso articulações e organizações contra-hegemônicas de contestação e de resistência às políticas neoliberais, pois a escola pode assumir a função política de instrumento da crítica, já que contém as contradições do sistema. E, conforme afirma Alvite (1981), são justamente as contradições inerentes ao discurso educacional e ao sistema capitalista que impedem a escola de reproduzir, de forma estática e imutável, a ideologia da classe dominante. Ou seja, apesar de se reconhecer que a escola reproduz a ideologia hegemônica, ela também gera os elementos críticos que questionam, que se opõem e, enfim, que colocam em xeque essa hegemonia.
REFERÊNCIAS
APPLE, M. Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo:
Cortez: Instituto Paulo Freire, 2003.
ALVITE, M. M. C. Didática e Psicologia: Crítica ao psicologismo na educação. São
Paulo: Edições Loyola, 1981.
GANDIN, L. A. Michael Apple: a educação sob a
ótica da análise relacional. In. REGO, T. C (org.). Currículo e Política educacional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.
MÉSZÁROS, I. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008.
SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: Primeiras aproximações. São Paulo:
Autores Associados, 1991.
______. Escola
e Democracia. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.