
A palavra cultura é derivada do verbo latino colo, particípio do verbo cultus e particípio futuro do verbo culturus, e significa, basicamente:
morar, ocupar, transformar a terra ocupada, explorar o solo de onde se cultiva.
Segundo Bosi (1993), o termo Cultus é
sinal de que a sociedade que produziu o seu próprio alimento já tem memória e
consciência para tal ato, ou seja, Cultus
está no sentido de que existe uma consciência coletiva que, a partir da vida
cotidiana, estabelece os planos para o futuro da comunidade. Já o termo Culturus, em sua forma substantiva, significa
qualquer tipo de trabalho feito no solo e também em relação ao desenvolvimento
do ser humano desde a sua mais tenra infância. Nesse último sentido, cultura
torna-se quase sinônimo de Paidéia,
ou seja, de educação, sendo considerada como o conjunto das práticas, das
técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações
para garantir a reprodução de um estado de existência social (BOSI, 1993, p. 16).
Para Santos (1987), cultura é uma construção histórica, seja
como concepção ou como dimensão do processo social; não sendo, portanto, algo
natural em decorrência de leis físicas ou biológicas, mas, pelo contrário, a
cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à
percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a
ter. Assim, uma primeira concepção de cultura refere-se a todos os aspectos de
uma realidade social, enquanto que uma segunda definição a entende
especificamente como conhecimento ou comportamento, isto é, atitudes a partir das
ideias e crenças relacionadas às representações cotidianas de um povo, grupo,
etc. Em síntese:
Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de
uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções,
como por exemplo se poderia dizer da arte. Não é apenas uma parte da vida
social como por exemplo se poderia falar da religião. Não se pode dizer que
cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a
realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os
aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos
e não em outros (SANTOS, 1987, p. 47-48).
Conforme Viana (2015, p. 15), entre as várias definições de
cultura, é preferível aquela que a define como “o conjunto das produções
intelectuais da humanidade”, pois todos os seres humanos produzem cultura, ou
seja, produzem ideias, saberes, valores, concepções, etc., não sendo, portanto,
privilégio de ninguém, já que não existe quem não tenha cultura. No entanto, a
cultura não é um fenômeno estático, uma vez que ela vive em constantes mudanças
e adaptações em virtude de ser constituída socialmente, não sendo produzida a
partir do nada, mas sim por meio de relações sociais concretas.
Segundo Adorno e Horkheimer (1985), designar e racionalizar
o conceito de cultura sempre foi o contrário dela própria, posto que o
denominador “cultura” já contém intrinsecamente o levantamento estatístico, a
catalogação, a estratificação e a classificação que a introduz no domínio
racionalizado da administração e do controle. Isso significa que, na moderna sociedade
capitalista, a cultura assume uma particularidade diante das demais formações e
configurações culturais existentes em sociedades pré-capitalistas. Tal particularidade, de acordo com Viana (2007, 2015), é resultado
da própria essência do modo de produção capitalista. Este é marcado pela
produção mercantil que se estabelece a partir da extração de mais valor. Isso
significa que:
Durante o desenvolvimento histórico da humanidade
ocorreram inúmeras mudanças culturais, que sempre acompanharam as mudanças
sociais. As grandes mudanças sociais, a passagem de uma forma de sociedade para
outra (a passagem da sociedade feudal para a capitalista, ou da escravista para
a feudal, por exemplo) promoveram grandes mudanças culturais. No entanto, no
interior de uma mesma forma de sociedade (feudal, escravista, tributária, etc.)
também ocorrem mudanças culturais. Porém, nada se compara ao ritmo de
velocidade das mudanças culturais na sociedade moderna. Para se compreender a
velocidade das mudanças culturais na sociedade moderna é preciso compreender
esta sociedade e suas características próprias e essenciais (VIANA, 2015, p.
16).
Portanto, a sociedade capitalista moderna é extremamente
diferente das sociedades que a antecederam, principalmente em relação ao
aceleramento dos processos de mudanças culturais. E esta sociedade só pode ser
compreendida a partir de uma compreensão prévia do que seja o sistema capitalista,
pois esta é a designação dada à forma como as pessoas produzem atualmente, isto
é, ao modo de produção atual, no qual toda a existência é dominada pelo
capital. É uma forma de vida a partir de uma sociedade dividida em duas classes
sociais fundamentais: de um lado aqueles que trabalham, formando a classe dos trabalhadores,
também conhecidos como o proletariado; e de outro lado, aqueles que não
trabalham, constituindo-se como a classe dos capitalistas, ou burguesia, que
são os patrões responsáveis pela dominação e opressão dos produtores nos locais
de trabalho.
Assim sendo, o capitalismo é um modo de vida no qual os
trabalhadores (proletários) são explorados por aqueles que não trabalham (a
burguesia), e esta exploração se efetiva por meio da extração e apropriação do
mais-valor, que é o trabalho não pago aos trabalhadores, isto é, o trabalho
realizado além do necessário para a subsistência, mas que é apropriado pelos
burgueses (MARQUES, 2007; SANTOS, 2014; VIANA, 2009). De maneira mais precisa:
A produção de mais-valor e a exploração no mundo do
trabalho consistem nas pedras angulares de sustentação que alicerçam o modo de
produção capitalista. O que define a essência do capitalismo é, sobretudo, a
produção de mercadorias geradas na extração do mais valor e, portanto, na
exploração de quem a produz, ou seja, o trabalhador, que na verdade nada possui
a não ser a sua força de trabalho que é vendida por um salário. Para a produção
de mercadorias é necessário, logicamente, a realização do trabalho humano, e
para executá-lo é necessário a mão-de-obra que advém da classe trabalhadora. Ao
realizar as suas atividades laborais dentro das fábricas, o operário participa
do processo de produção de determinadas mercadorias e quanto mais riquezas ele
produz, mais ele reafirma a sua própria miséria (SANTOS, 2014, p. 20).
Logo, o processo capitalista de produção de mercadorias é um
processo de exploração e opressão que produz o mais-valor, e isto configura a
existência da moderna sociedade capitalista na qual a cultura assume
características distintas das demais configurações culturais anteriormente
existentes, pois:
É uma sociedade que vai, paulatinamente, transformando
tudo em mercadoria. A cada estágio do desenvolvimento capitalista, novas
instâncias da sociedade são mercantilizadas e, com isso, se tornam valor de
troca para o capital em sua contínua expansão sobre o mundo existente. O
capital acaba dominando não apenas a produção de meios de produção e de
tecnologia, mas também os bens de consumo, o lazer, a cultura. Esse domínio
asfixiante do capital acaba gerando uma cultura mercantil e cria um aparato
tecnológico adequado para a sua produção. Temos assim a emergência do que
convencionalmente passou a ser chamado de “indústria cultural” e de “cultura de
massa” (VIANA, 2007, p. 5).
Assim, desde o seu surgimento, o capitalismo tem como tendência
subjugar e dominar todas as esferas da vida social, inclusive as produções culturais,
transformando-as em relações mercadológicas. Tais transformações econômicas resultam
diretamente em transformações políticas e sociais em virtude dos mecanismos de
continuidade e manutenção do capitalismo pertencerem à burguesia, ou seja, a
monopolização da economia e o domínio dos poderes político, judiciário,
religioso etc., além da esfera cultural padronizada, faz com que o capital organize
– de maneira sistemática e racionalizada –, um mundo moderno dominado pela
tecnologia, pela confiança na infabilidade da ciência, pela crença no progresso
social e, ao mesmo tempo, transforme tudo em mercadorias voltadas para o
consumo e, obviamente, para a geração de lucro (SANTOS, 2014).
O capitalismo institui, assim, uma cultura específica
conforme a sua imagem e semelhança, e isso em virtude de que as ideias da
dominação burguesa tendem a justificar e naturalizar as relações sociais, visto
que as ideias da classe
dominante são, em cada época, as ideias dominantes, pois a classe que domina a
força material da sociedade também domina, ao mesmo tempo, a sua força
espiritual, ou seja, a classe que tem à sua disposição os meios de produção
material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual (MARX;
ENGELS, 1991). E, dessa forma, ofuscam a realidade social contraditória, marcada
pelos conflitos de classe e pelos antagonismos que predominam nas relações de
produção capitalista.
Isso significa que na moderna sociedade industrializada – considerada
como “sociedade de massa”, cuja produção capitalista de mercadorias revela uma
relação de exploração e dominação de uma classe social por outra –, são as
instituições dominantes as responsáveis por estabelecer, fornecer e até mesmo
criar as necessidades para as multidões e seus participantes anônimos, pois, a
burguesia não pode garantir a sua própria existência, enquanto classe
dominante, sem revolucionar, constantemente, os instrumentos de produção e, por
conseguinte, todas as relações sociais (MARX; ENGELS, 1993). E, para isso, é
preciso que se desenvolvam mecanismos culturais e eficazes adequados, capazes
de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas, controlar
as massas humanas e, assim, fazê-las produzir e consumir ao mesmo tempo em que,
conformadas com seus destinos e sonhos, se tornem alheias à dinâmica e à lógica
do modo de produção capitalista (SANTOS, 1987). Tal lógica exige uma cultura cujas pretensões são a de
homogeneizar a vida e a de naturalizar a concepção de mundo dos diversos agrupamentos
que formam esta sociedade, e facilitando, por essas razões, o seu controle.
A cultura sempre contribuiu para domar os instintos
revolucionários bem como os costumes bárbaros. A cultura industrializada dá
algo mais. Ela ensina e infunde a condição em que a vida desumana pode ser tolerada.
O indivíduo deve utilizar o seu desgosto geral como impulso para abandonar-se
ao poder coletivo do qual está cansado. As situações cronicamente desesperadas
que afligem o espectador na vida cotidiana transformam-se na reprodução, não se
sabe como, na garantia que se pode continuar a viver. Basta dar-se conta da
própria inutilidade, subscrever a própria desconfiança, eis que já entramos no
jogo. A sociedade é uma sociedade de desesperado e, portanto, a presa dos
líderes (ADORNO, 2002, p. 53).
Essa cultura industrializada, e supostamente homogeneizadora,
teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade denominado
como Indústria Cultural, sendo esta uma esfera de atividade econômica, com
inversões de capital, recrutamento de mão-de-obra especializada,
desenvolvimento de novas técnicas, produção de bens e serviços, etc. Seus mecanismos,
assim como os seus meios de comunicação, tais como o rádio, a televisão, a
imprensa, o cinema, as obras de arte em geral etc., são elementos fundamentais
da própria organização social e estão, sem dúvida, associados ao exercício do
poder e às formas de exploração, opressão e regulação social em virtude de uma enxurrada
de informações precisas e diversões assépticas que tanto podem despertar como idiotizar (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1985.
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
MARQUES, Edmilson. A música na sociedade moderna. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Hucitec, 1991.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.
SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.
SANTOS, Jean Isidio. O Documentário como Crítica Social: a representação da crise neoliberal da Argentina na câmera de Pino Solanas. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias), Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Ciências Socioeconômicas e Humanas. Anápolis, 2014.
VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade: Ensaios sobre a condição juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.
VIANA, Nildo. Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007.
VIANA, Nildo. O Capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo: Editora Santuário, 2009.
REFERÊNCIAS
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ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1985.
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
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