segunda-feira, 29 de junho de 2015

A QUESTÃO DA CULTURA NA SOCIEDADE MODERNA



A palavra cultura é derivada do verbo latino colo, particípio do verbo cultus e particípio futuro do verbo culturus, e significa, basicamente: morar, ocupar, transformar a terra ocupada, explorar o solo de onde se cultiva. Segundo Bosi (1993), o termo Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu próprio alimento já tem memória e consciência para tal ato, ou seja, Cultus está no sentido de que existe uma consciência coletiva que, a partir da vida cotidiana, estabelece os planos para o futuro da comunidade. Já o termo Culturus, em sua forma substantiva, significa qualquer tipo de trabalho feito no solo e também em relação ao desenvolvimento do ser humano desde a sua mais tenra infância. Nesse último sentido, cultura torna-se quase sinônimo de Paidéia, ou seja, de educação, sendo considerada como o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de existência social (BOSI, 1993, p. 16). 

Para Santos (1987), cultura é uma construção histórica, seja como concepção ou como dimensão do processo social; não sendo, portanto, algo natural em decorrência de leis físicas ou biológicas, mas, pelo contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Assim, uma primeira concepção de cultura refere-se a todos os aspectos de uma realidade social, enquanto que uma segunda definição a entende especificamente como conhecimento ou comportamento, isto é, atitudes a partir das ideias e crenças relacionadas às representações cotidianas de um povo, grupo, etc. Em síntese:

Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções, como por exemplo se poderia dizer da arte. Não é apenas uma parte da vida social como por exemplo se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros (SANTOS, 1987, p. 47-48).

Conforme Viana (2015, p. 15), entre as várias definições de cultura, é preferível aquela que a define como “o conjunto das produções intelectuais da humanidade”, pois todos os seres humanos produzem cultura, ou seja, produzem ideias, saberes, valores, concepções, etc., não sendo, portanto, privilégio de ninguém, já que não existe quem não tenha cultura. No entanto, a cultura não é um fenômeno estático, uma vez que ela vive em constantes mudanças e adaptações em virtude de ser constituída socialmente, não sendo produzida a partir do nada, mas sim por meio de relações sociais concretas.

Segundo Adorno e Horkheimer (1985), designar e racionalizar o conceito de cultura sempre foi o contrário dela própria, posto que o denominador “cultura” já contém intrinsecamente o levantamento estatístico, a catalogação, a estratificação e a classificação que a introduz no domínio racionalizado da administração e do controle. Isso significa que, na moderna sociedade capitalista, a cultura assume uma particularidade diante das demais formações e configurações culturais existentes em sociedades pré-capitalistas. Tal particularidade, de acordo com Viana (2007, 2015), é resultado da própria essência do modo de produção capitalista. Este é marcado pela produção mercantil que se estabelece a partir da extração de mais valor. Isso significa que:

Durante o desenvolvimento histórico da humanidade ocorreram inúmeras mudanças culturais, que sempre acompanharam as mudanças sociais. As grandes mudanças sociais, a passagem de uma forma de sociedade para outra (a passagem da sociedade feudal para a capitalista, ou da escravista para a feudal, por exemplo) promoveram grandes mudanças culturais. No entanto, no interior de uma mesma forma de sociedade (feudal, escravista, tributária, etc.) também ocorrem mudanças culturais. Porém, nada se compara ao ritmo de velocidade das mudanças culturais na sociedade moderna. Para se compreender a velocidade das mudanças culturais na sociedade moderna é preciso compreender esta sociedade e suas características próprias e essenciais (VIANA, 2015, p. 16).

Portanto, a sociedade capitalista moderna é extremamente diferente das sociedades que a antecederam, principalmente em relação ao aceleramento dos processos de mudanças culturais. E esta sociedade só pode ser compreendida a partir de uma compreensão prévia do que seja o sistema capitalista, pois esta é a designação dada à forma como as pessoas produzem atualmente, isto é, ao modo de produção atual, no qual toda a existência é dominada pelo capital. É uma forma de vida a partir de uma sociedade dividida em duas classes sociais fundamentais: de um lado aqueles que trabalham, formando a classe dos trabalhadores, também conhecidos como o proletariado; e de outro lado, aqueles que não trabalham, constituindo-se como a classe dos capitalistas, ou burguesia, que são os patrões responsáveis pela dominação e opressão dos produtores nos locais de trabalho. 

Assim sendo, o capitalismo é um modo de vida no qual os trabalhadores (proletários) são explorados por aqueles que não trabalham (a burguesia), e esta exploração se efetiva por meio da extração e apropriação do mais-valor, que é o trabalho não pago aos trabalhadores, isto é, o trabalho realizado além do necessário para a subsistência, mas que é apropriado pelos burgueses (MARQUES, 2007; SANTOS, 2014; VIANA, 2009). De maneira mais precisa:

A produção de mais-valor e a exploração no mundo do trabalho consistem nas pedras angulares de sustentação que alicerçam o modo de produção capitalista. O que define a essência do capitalismo é, sobretudo, a produção de mercadorias geradas na extração do mais valor e, portanto, na exploração de quem a produz, ou seja, o trabalhador, que na verdade nada possui a não ser a sua força de trabalho que é vendida por um salário. Para a produção de mercadorias é necessário, logicamente, a realização do trabalho humano, e para executá-lo é necessário a mão-de-obra que advém da classe trabalhadora. Ao realizar as suas atividades laborais dentro das fábricas, o operário participa do processo de produção de determinadas mercadorias e quanto mais riquezas ele produz, mais ele reafirma a sua própria miséria (SANTOS, 2014, p. 20).

Logo, o processo capitalista de produção de mercadorias é um processo de exploração e opressão que produz o mais-valor, e isto configura a existência da moderna sociedade capitalista na qual a cultura assume características distintas das demais configurações culturais anteriormente existentes, pois:

É uma sociedade que vai, paulatinamente, transformando tudo em mercadoria. A cada estágio do desenvolvimento capitalista, novas instâncias da sociedade são mercantilizadas e, com isso, se tornam valor de troca para o capital em sua contínua expansão sobre o mundo existente. O capital acaba dominando não apenas a produção de meios de produção e de tecnologia, mas também os bens de consumo, o lazer, a cultura. Esse domínio asfixiante do capital acaba gerando uma cultura mercantil e cria um aparato tecnológico adequado para a sua produção. Temos assim a emergência do que convencionalmente passou a ser chamado de “indústria cultural” e de “cultura de massa” (VIANA, 2007, p. 5).

Assim, desde o seu surgimento, o capitalismo tem como tendência subjugar e dominar todas as esferas da vida social, inclusive as produções culturais, transformando-as em relações mercadológicas. Tais transformações econômicas resultam diretamente em transformações políticas e sociais em virtude dos mecanismos de continuidade e manutenção do capitalismo pertencerem à burguesia, ou seja, a monopolização da economia e o domínio dos poderes político, judiciário, religioso etc., além da esfera cultural padronizada, faz com que o capital organize – de maneira sistemática e racionalizada –, um mundo moderno dominado pela tecnologia, pela confiança na infabilidade da ciência, pela crença no progresso social e, ao mesmo tempo, transforme tudo em mercadorias voltadas para o consumo e, obviamente, para a geração de lucro (SANTOS, 2014). 

O capitalismo institui, assim, uma cultura específica conforme a sua imagem e semelhança, e isso em virtude de que as ideias da dominação burguesa tendem a justificar e naturalizar as relações sociais, visto que as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, pois a classe que domina a força material da sociedade também domina, ao mesmo tempo, a sua força espiritual, ou seja, a classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual (MARX; ENGELS, 1991). E, dessa forma, ofuscam a realidade social contraditória, marcada pelos conflitos de classe e pelos antagonismos que predominam nas relações de produção capitalista.

Isso significa que na moderna sociedade industrializada – considerada como “sociedade de massa”, cuja produção capitalista de mercadorias revela uma relação de exploração e dominação de uma classe social por outra –, são as instituições dominantes as responsáveis por estabelecer, fornecer e até mesmo criar as necessidades para as multidões e seus participantes anônimos, pois, a burguesia não pode garantir a sua própria existência, enquanto classe dominante, sem revolucionar, constantemente, os instrumentos de produção e, por conseguinte, todas as relações sociais (MARX; ENGELS, 1993). E, para isso, é preciso que se desenvolvam mecanismos culturais e eficazes adequados, capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas, controlar as massas humanas e, assim, fazê-las produzir e consumir ao mesmo tempo em que, conformadas com seus destinos e sonhos, se tornem alheias à dinâmica e à lógica do modo de produção capitalista (SANTOS, 1987).  Tal lógica exige uma cultura cujas pretensões são a de homogeneizar a vida e a de naturalizar a concepção de mundo dos diversos agrupamentos que formam esta sociedade, e facilitando, por essas razões, o seu controle.

A cultura sempre contribuiu para domar os instintos revolucionários bem como os costumes bárbaros. A cultura industrializada dá algo mais. Ela ensina e infunde a condição em que a vida desumana pode ser tolerada. O indivíduo deve utilizar o seu desgosto geral como impulso para abandonar-se ao poder coletivo do qual está cansado. As situações cronicamente desesperadas que afligem o espectador na vida cotidiana transformam-se na reprodução, não se sabe como, na garantia que se pode continuar a viver. Basta dar-se conta da própria inutilidade, subscrever a própria desconfiança, eis que já entramos no jogo. A sociedade é uma sociedade de desesperado e, portanto, a presa dos líderes (ADORNO, 2002, p. 53).

Essa cultura industrializada, e supostamente homogeneizadora, teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade denominado como Indústria Cultural, sendo esta uma esfera de atividade econômica, com inversões de capital, recrutamento de mão-de-obra especializada, desenvolvimento de novas técnicas, produção de bens e serviços, etc. Seus mecanismos, assim como os seus meios de comunicação, tais como o rádio, a televisão, a imprensa, o cinema, as obras de arte em geral etc., são elementos fundamentais da própria organização social e estão, sem dúvida, associados ao exercício do poder e às formas de exploração, opressão e regulação social em virtude de uma enxurrada de informações precisas e diversões assépticas que tanto podem despertar como idiotizar (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1985.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

MARQUES, Edmilson. A música na sociedade moderna. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Hucitec, 1991.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

SANTOS, Jean Isidio. O Documentário como Crítica Social: a representação da crise neoliberal da Argentina na câmera de Pino Solanas. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias), Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Ciências Socioeconômicas e Humanas. Anápolis, 2014.

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade: Ensaios sobre a condição juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.

VIANA, Nildo. Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007.

VIANA, Nildo. O Capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo: Editora Santuário, 2009.