domingo, 4 de abril de 2010

EFEITO WERTHER: UMA ANÁLISE LITERÁRIA E SOCIOLÓGICA DO SUICÍDIO

"Uma literatura que não respire o ar da sociedade que lhe é contemporânea, que não ouse comunicar à sociedade os seus próprios sofrimentos e as suas próprias aspirações, que não seja capaz de perceber a tempo os perigos morais e sociais que lhe dizem respeito, não merece o nome de literatura" (Alexander Soljenitsyne)

Este texto consiste em demonstrar, ainda que de forma sucinta, tanto na abordagem quanto no estudo científicamente minucioso sobre o tema, uma das diversas maneiras de analisar a possível relação intrínseca entre Literatura e Sociedade. Para tal proposta, utilizaremos como metodologia a cristalização do referenciais teóricos levantados nas leituras e reflexões sistematizadas, conforme o nosso intento, dos pressupostos e concepções de Karl Marx e Émile Durkheim, dentre outros, assim como o “dissecamento” da obra literária em questão, selecionada como objeto de estudos teórico e histórico.

O termo Efeito Werther, criado por Phillips (1974), é oriundo do clássico da literatura universal: “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do escritor alemão Johan Wolfgang Von Goethe, lançado em 1774 e publicado no mesmo ano. A edição que atualmente circula pelo mundo fora publicada em 1787, revista e escolhida pelo próprio Goethe. Quanto à descoberta e ao entusiasmo dos românticos pelo Werther, isto só se deu na década de 1830, contribuindo decisivamente para a divulgação do que ficou conhecido como o “mal do século” (Weltschmerz), misto de melancolia e de pessimismo, de exacerbação amorosa e de expansão incondicional dos estados de espírito para a Natureza, e de entusiasmo pela morte, posturas que marcaram os escritos românticos.

Estrutura do Mal do Século:

* Culto da noite;
* Amada mortuária;
* Doenças psíquicas;
* Grotesco;
* Desvios de moral e de comportamento;
* Angústia;
* Degeneração;
* Sentido trágico;
* Morbidez;

Características do Mal do Século:

Tais características são descobertas ao analisarmos e apreciarmos os clichês e chavões, elementos primordiais das diversas obras românticas em todo o mundo:

* Mulher Amada: Pálida, Sombria, Doentia, Virgem, Etérea, Vaporosa, Transparente, Leviana, Lasciva, Lânguida, Nívea, Anjo, Angélica, Enluarada, Branca, Trêmula, Fria, Tremente, Gélida.

* Sujeito Amante: Mancebo, Pobre, Infeliz, Desgostoso, Louco, Insano, Altivo, Ingênuo, Triste, Amargurado, Doente, Perdido, Desdenhado, Proscrito.

* Ambiente Lírico: Noite, Lua, Bálsamo, Céu enluarado ou Céu estrelado, Praia, Peregrinação, Lamúria.

* Sentimentos Imperativos: Amor, Melancolia, Resignação, Ódio, Rancor, Medo, Terror, Desgosto, Fracasso, Depressão.

Relatos históricos, a partir da divulgação do livro "Os sentimentos do jovem Werther", narram que um grande número de adolescentes e jovens assumiram o suicídio como opção, empregando o mesmo método utilizado pelo protagonista do romance, vestindo as mesmas roupas ou ainda deixando um exemplar do livro em seu leito de morte. Tais atitudes deixaram toda a Europa (em pleno florescer da revolução industrial) assustada a ponto de proibirem a circulação do livro. No entanto, o impacto suicida do romance de Goethe nunca foi conclusivamente demonstrado (Phillips, 1985). Apenas mais recentemente foram postas em práticas algumas tentativas científicas para examinar a existência de um possível Efeito Werther.

O enredo do romance é relativamente simples: Werther, o protagonista da história, escreve cartas a seu amigo Wilhelm, narrando os sentimentos, as sensações e as impressões que têm sobre a vida que leva. Ao conhecer Charlotte, já comprometida, e por ela se apaixonar, tudo no jovem se exacerba, passando à condição de infeliz enamorado que inicialmente se afasta da bem-amada, para depois reencontrá-la, desta feita casada, o que o leva a um desenlace trágico: o suicídio, que parece-nos o efeito de uma série de causas levadas ao extremo pela exaltação do jovem. Ou seja, o suicídio é o resultado da inadequação do ser no mundo. É encarado não somente como forma de libertação, mas sobretudo como a expressão da paixão em sua tensão máxima, rompendo as fronteiras entre vida e morte.

Pode-se investigar então, a partir das suposições, dos referências teóricos e das bibliografias a respeito do tema proposto, possíveis respostas para as seguintes questões:

1. Pode uma obra literária influenciar, de forma incisiva, uma sociedade?
2. O suicídio, como opção, foi excepcionalmente devido à leitura de Werther?
3. Os jovens suicidas, independentemente da leitura da obra, já não teriam uma “predisposição” ao ato, resultante do meio social que os cercavam?
4. A leitura e influência de Werther não seria apenas um elemento ínfimo na cadeia dos fenômenos e representações sociais que culminaram no ato suicida?
5. De que maneira a sociedade (inconsciente coletivo e social) influencia a criação de uma obra Literária?

De forma resumida, para Marx as relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Assim, adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, modificam a maneira de sobreviver e interpretar a vida e, consequentemente, modificam todas as esferas das relações sociais. Deste modo, a partir da mudança de ritmo de vida, mudança na forma de pensar e perceber, mesmo que ideologicamente, um mundo, “os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.”

Também de forma breve, segundo Durkheim, há duas formas de solidariedade (tipos de sociedade: mecânica e orgânica) que podem ser constatadas no processo de transformação social, (...) e que, a partir dessas transformações, o suicídio não pode ser analisado como um mero ato individual, mas sim como um fenômeno social, resultante do meio social que o cerca e o transforma.

A Solidariedade Mecânica (típica das sociedades pré-capitalistas), é uma sociedade que tem coerência porque os indivíduos ainda não se diferenciam, mas se identificam e possuem fortes laços (Consciência Coletiva): laço familiar; religião; tradição; costumes; reconhecem os mesmos valores, os mesmos sentimentos, os mesmos objetos sagrados e pertencem a uma coletividade equilibrada

Já a Solidariedade Orgânica (Sociedades capitalistas), em que a divisão do trabalho, característica das sociedades mais desenvolvidas, gera um novo tipo de solidariedade, não mais baseado na semelhança entre os componentes (solidariedade mecânica), mas na complementação arbitrária de partes diversificadas. O encontro de interesses complementares cria um laço social novo, ou seja, um outro tipo de princípio de solidariedade e interação, com moral própria, e que dá origem a uma nova organização social, divida em classes, mais competitiva e hierarquizada.

Após delinear as duas formas de solidariedade (mecânica e orgânica), constatadas como elementos imprescindíveis no processo de transformação social, Durkheim distingue, após extensiva pesquisa, três tipos de suicídio:

Suicídio egoísta: quando o indivíduo não está integrado à instituição, sente separado da sociedade, distante das correntes sociais. Não existe integração o indivíduo não se sente parte integrante do grupo ou redes sociais que regulam as ações e imprimem disciplina e ordem (família, religião, trabalho, etc.), os indivíduos apresentam desejos que não podem satisfazer-se. Quando esse egoísmo acaba frustrando-se leva as ondas sociais de suicídio. Também pode aparecer quando a pessoa se desvincula das redes sociais, sofrendo de depressão, melancolia, e outros sentimentos.

Suicídio altruísta: é o oposto do suicídio egoísta, o suicida altruísta se revela quando o indivíduo se identifica com uma causa nobre, com a coletividade, essa identificação deve ser tão intensa que este acaba renegando a própria vida pela sua identificação. Está excessivamente integrado ao grupo, frequentemente está regulada por laços culturais, religiosos ou políticos, essa integração acaba sendo tão forte que o indivíduo acaba sacrificando sua própria vida em favor do grupo (Mártires, Kamikases, etc.).

Suicídio anômico: deve-se a um desregramento social, ocorre depois da mudança na vida de um indivíduo (ex: divórcio, perda de emprego), o que desorganiza os sentimentos de relação com o grupo em que não existem normas ou estas perderam o sentido. Quando os laços que prendem os indivíduos aos grupos se afrouxam.

Resumindo, não se propõe aqui solucionar o que evidentemente seria a causa do “Efeito Werther” a partir da obra de Goethe, já que para tal empreitada seria necessário uma extensiva e ampla pesquisa e até mesmo o estudo de casos comprovados. Mas procura-se, conforme mencionado no início, demonstrar uma das diversas maneiras de se analisar a possível relação intrínseca entre Literatura e Sociedade. Pois, segundo Lukács, quando se analisa certas peculiaridades em uma obra literária, deve-se ter em mente que muitas das vezes a literatura é vista como o reflexo da sociedade, para qual a criação literária se subordina à realidade histórica e dela depende. Sem o devido aprofundamento, enfatizamos que esta concepção de Lukács, em sua totalidade, torna-se controvérsia, uma vez que restringe, de forma mecânica, toda a atividade literária a uma mera dimensão superestrutural dependente e determinada pelas condições materiais. Mas, em relação ao nosso intento, é aceitável no momento em que ressalva-se apenas “certas peculiaridades” da obra.

A obra literária é concebida e recebida, de um modo indireto, na relação entre a experiência empírica (contexto social do autor e receptor) e suas composições (imaginário), a partir de um processo em que o escritor transfere para as linhas escritas a mediação através da qual os problemas e as angústia da coletividade social se encarnam de maneira coerente nas páginas de sua obra. Há então, segundo Goldmann, a “criação de um mundo cuja estrutura é análoga à estrutura essencial da realidade social”, porém com uma solução e um final pronto que, de certa forma, torna-se sugestivo quanto à solução das angústias do leitor, imerso em um mundo análogo à estrutura essencial da obra e influenciado pelo exemplo "heróico" do herói.

E assim, entendemos, à luz das perspectivas de Marx e Durkheim, dentre outros, que o processo de transformação social e, consecutivamente, o próprio contexto social, político, cultural e histórico do autor e do leitor são os elementos fundamentais na concepção ideológica de criação e recepção da obra. Pois, as práticas e representações sociais constituem o imaginário de ambos: para o autor ativa-se ideologicamente nas ações de criação literária de um mundo análogo à realidade social e histórica daquela época vivida. Enquanto que para o leitor (daquele contexto social), a identificação com a obra em si e, principalmente, com as atitudes do protagonista, mostra-se como uma solução, uma possibilidade, talvez a única eficaz, de fuga daquela concreta realidade nefasta.

Diney Vasco

Referências:
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Tradução Sérgio Bath. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. tradução: Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. tradução Eduardo Brandão. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
DURKHEIM, Émile. Émile Durkheim: sociologia.Organizador Josué Albertino Rodrigues; tradução de Laura Natal Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Ática, 1984.
GOLDMANN, Lucien. Sociologia do Romance. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
LUKÁCS, Georg. A Teoria do Romance. São Paulo: Duas cidades - Ed. 34, 2000.
MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2004.

PHILLIPS, D. (1974). The influence of suggestion on suicide: Substantive and theoretical implications of the Werther effect. American Sociological Review, 39, 340-354.
PHILLIPS, D. (1985). The Werther effect. Suicide and, other forms of violence, are contagious. The Sciences, 7/8, 32-39.

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