
EXCETO COISAS ETERNAS...
DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!
(Dante Alighieri - A Divina Comédia - Inferno: Canto III)
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
(José Saramago - Ensaio sobre a cegueira)
O presente texto tem como objetivo uma explanação a respeito de uma análise desenvolvida, ainda que de forma sucinta, a partir da leitura do livro Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, centrada no estudo, principalmente, da intertextualidade, estando ela explícita ou implícita, bem como da aplicação das diferentes ideologias "parodiadas", seguindo sempre um método e perspectiva voltada para o entendimento e reflexão do próprio sistema de idéias do autor, assim como suas concepções de homem, sociedade e ambiente, já que os autores contemporâneos têm como notória característica a utilização da paródia, da paráfrase e da estilização como recursos de intertextualidade e "implementação" da obra.
Ao nosso entender, há em o Ensaio sobre a cegueira, por um lado físico e pragmático, algumas analogias entre os espaços infernais apresentados por Dante Alighieri em A Divina Comédia e as ambientações utilizadas no romance de Saramago. E por outro lado, numa direção ideológica, sociológica e filosófica, percebe-se uma aceitável alusão ao conflito pessoal e social-familiar do personagem Gregor Samsa de A Metamorfose de Franz Kafka, em que idéias privadas, concepções particulares, mensagens e metáforas "anacrônicas" são transformadas, pelas mãos de Saramago, em novas mensagens, desta vez numa temática sócio-universal.
Intertextualidade: Um breve conceito
Grosso modo, pode-se definir a intertextualidade como sendo um "diálogo" entre textos. Esse diálogo pressupõe um universo cultural muito amplo e complexo, pois implica na identificação e no reconhecimento de remissões a obras ou a trechos mais ou menos conhecidos. Dependendo da situação, a intertextualidade tem funções diferentes que dependem dos textos e contextos em que ela é inserida. Evidentemente, o fenômeno da intertextualidade está ligado ao "conhecimento de mundo", que deve ser compartilhado, ou seja, comum ao produtor (escritor) e ao receptor (leitor) de textos. O diálogo pode ocorrer em diversas áreas do conhecimento, não se restringindo única e exclusivamente a textos literários.
- Epígrafe - constitui uma escrita introdutória a outra.
- Citação - é uma transcrição do texto alheio, marcada por aspas.
- Paráfrase - é a reprodução do texto do outro com a palavra do autor. Ela não se confunde com o plágio, pois o autor deixa claro sua intenção e a fonte.
- Paródia - é uma forma de apropriação que, em lugar de endossar o modelo retomado, rompe com ele, sutil ou abertamente. Ela perverte o texto anterior, visando à ironia, ou à crítica.
- Pastiche - uma recorrência a um gênero.
- Tradução - a tradução está no campo da intertextualidade porque implica em recriação de um texto.
Sobre a Metamorfose
A leitura da obra Metamorfose, de Kafka, é totalmente atual, em que pese ter sido escrita em 1912, contextualizada no momento histórico da crise da Bélle Époque que antecede a Primeira Guerra Mundial. Kafka está em meio a uma crise existencial, religiosa e racional, o que poderia ser chamada de crise da Modernidade. Em seu livro, fica evidente a desesperança do ser, o pessimismo com relação ao futuro, a falta de respostas às questões mais simples e às mais profundas.
A Metamorfose, assim como o Ensaio sobre a cegueira são obras fortes e agressivas, mordazes e, acima de tudo, de resgate de valores e princípios. A transformação do caixeiro-viajante Gregor Samsa em um inseto nojento e a cegueira branca e coletiva dos personagens de Saramago nos remete a uma análise reflexiva originando uma infinita série de ponderações e questionamentos: Num primeiro momento pode ser a condição de egoísmo ocasionando a solidão humana em sua plenitude, isto é, o homem contemporâneo chegou ao seu mais extremo nível de individualismo: Os outros não são relevantes para a construção da individualidade. O outro é somente um instrumento a serviço do individualismo, pois o sistema atual de convivência social é enganoso, alienante, predatório, afastando a humanidade de suas afeições mais honestas e profundas, transformando o outro em adversário.
A cegueira branca seria, nesse caso, uma metáfora do egoísmo humano, consistindo no fato do homem voltar o olhar para si mesmo, enxergando exclusivamente o seu próprio interesse. O que é externo a vontade e interesse dos seres humanos só é visto a partir do que é de seu interesse. Saramago nas linhas de seu romance enfatiza, de forma explícita, o egoísmo humano, que é tratado como uma segunda pele, ao escrever que:
(...) Na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra. (p. 169)
Ou seja, no trecho citado acima, fica claro que o homem é insensível aquilo que lhe é externo, pois está protegido com uma segunda pele chamada egoísmo, que é dura e insensível. Fica evidente o fato de o ser humano só enxergar o que lhe convém, o que vai ao encontro de seus interesses e, como conseqüência, acaba por não enxergar a realidade, as outras pessoas com seus problemas, desejos etc. Assim, os personagens das duas obras revelam fundamentos da alienação, da subjetividade empobrecida em meio às condições perversas, da apatia diante da vida, do medo de situações novas, estranhas e adversas que fogem dos pressupostos estabelecidos pela sociedade contemporânea. Os dois autores ainda ressaltam em seus textos que é na constatação da experiência mutilada do indivíduo que se encontra a possibilidade de resgate da própria existência.
Kafka e Saramago nos apresenta o homem moderno sem identidade que vive um momento de crise, pois as velhas concepções saturaram-se, já não o definem. Ou seja, os modelos humanistas do Iluminismo perderam sua força, de modo que, sem a Transformação de Kafka e a Visão de Saramago a respeito de novas fontes identificadoras, o homem pós-moderno passa a viver no desespero, à beira da barbárie, pois é um ser que está à procura de respostas para a sua crise de identidade: Os personagens cegos, ao saírem do manicômio, procuram suas próprias casas e parentes. Trata-se de uma imagem que aponta para essa redescoberta de sua particularidade e identidade. Enquanto que em Kafka o personagem procura se "distanciar" de sua casa e parentes, por crer já estar totalmente inserido em uma particularidade/universal negativa e desesperançosa, buscando assim sua verdadeira identidade interior e exterior numa crise niilista, existencial e sem retorno.
Saramago também não deixa de apresentar e enfatizar o aspecto da negatividade e descrença na sociedade e na existência humana, todavia, não chega ao desespero sem volta de Kafka, pois também oferece aos leitores momentos de esperança e solidariedade quando os personagens que resolvem permanecer juntos experimentam deslumbramentos de profunda fraternidade e compaixão ao cogitarem um deslocamento para o campo, fugindo da cidade, que não é um lugar propício para a sobrevivência. No campo, encontrariam os recursos naturais necessários. Saramago demonstra neste ponto que a cidade, constituída e organizada pela sociedade em todas as suas vertentes, é vista como maléfica, usurpadora e desumana, um lugar inóspito, um inferno.
Tanto em Kafka como em Saramago a salvação e a transcendência eram uma questão de tempo. Um indivíduo em cada obra, Gregor Samsa e a Mulher do médico, investindo na salvação do próximo. Esse sacrifício e transformação na própria carne para salvar o outro e até toda uma geração, mesmo que às vezes sem se dar conta disso, leva-nos a questionar sobre qual é o real valor do ser humano perante e para a sociedade e até mesmo qual é o real valor do ser humano perante os outros?
A morte de Gregor Samsa, assim como a "possível" cegueira da Mulher do médico no capítulo final do livro, representam uma salvação para todos e, principalmente, uma libertação humana, transcendental e satisfatória para os dois. Pois, a verdadeira transformação ocorreu não com eles, mas com quem precisava: os outros.
Sobre o Inferno (A divina comédia)
Ao lermos o romance de José Saramago, nos deparamos com uma realidade literária, na qual as pessoas são acometidas por uma “cegueira branca”. No inicio, as ações começam a se desenvolverem em uma ambientação urbana caótica, formada pelos congestionamentos, pelas poluições sonoras, visuais e do ar, pela pressa e individualismo das pessoas e pelas ruas que formam verdadeiros labirintos e formigueiros urbanos intrínsecos à sociedade pós-moderna.
Concomitante e após a epidemia de cegueira, mescla-se à ambientação o silêncio fétido da morte exposta, a sujeira da cidade e das pessoas andrajosas com seus corpos maltratados e humilhados em função de uma inevitável degradação do ser humano que agora habita um espaço sombrio, uma cidade bárbara e decadente, onde as ruas com amontoados de corpos e entulhos formam um imenso labirinto, onde qualquer um numa busca cega e desesperadora por respostas pode perder-se entre as avenidas e travessas, para nunca mais retornar. É essa busca por soluções, e pelas antigas casas e parentes, que faz com que o principal grupo de cegos se transforme e se renove para que surja uma vida nova e uma outra forma de enxergar o mundo, as pessoas, e a esperança.
Além desse labirinto urbano, Saramago nos apresenta outro espaço labiríntico: o manicômio, local para onde os cegos e suspeitos de "contaminação" são levados e deixados. O manicômio é formado por divisões que nos são apresentados como infernais, onde as personagens se encontram sutilmente ligadas a cada uma dessas divisões infernais de acordo com as características apresentadas pelo autor. A edificação é dividida em camaratas, espécies de celas ou quartos que abrigam as pessoas acometidas pela “cegueira branca”, e também os possíveis contaminados. Todo o local forma um perfeito labirinto e armadilha para aqueles que não possuem a visão. E no fundo de um dos corredores, num local extremamente escuro, encontram-se os diabólicos cegos malvados, um bando de ladrões e maus elementos que se apoderam da comida e aproveitam para cometer latrocínios, estupros e homicídios.
Obra prima de Dante Alighieri, iniciou-a provavelmente por volta de 1307, concluindo-a pouco antes de sua morte (1321). Escrita em italiano, a obra é um poema narrativo rigorosamente simétrico e planejado que narra uma odisséia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, descrevendo cada etapa da viagem com detalhes quase visuais. É um lugar criado com geografia definida, embasado em uma estrutura medieval-cristã, associando-o à tradição helênica, ou seja, baseado também na Odisséia de Homero e no Canto VI da Eneida, de Virgílio.
Dante, o protagonista da obra, um dia se vê perdido em uma floresta totalmente escura, e então sua vida deixa de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio, poeta da antigüidade que ele admira, e disposto a guiá-lo por um caminho alternativo.
O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio o guiaria até as portas do céu. Dante então decide seguir Virgílio que, além de guiá-lo, o protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que os leva ao outro lado da terra, e assim puderam voltar a ver o céu e as estrelas.
Em suma, Dante, o personagem da história, é gentilmente guiado e ajudado pelo poeta Virgílio, ao adentrar no inferno com seus espaços inferiores, os quais são amplamente explanados em suas características e peculiaridades, estágios e castigos para todos os pecadores. Situação análoga ocorre no Ensaio sobre a cegueira: pois, pode-se afirmar, até certo limiar, que a Mulher do médico é uma espécie de Virgílio moderno que, metaforicamente, possui as características de um poeta, ou seja, tem uma visão além dos demais e uma voz reconhecida dentre todas as outras, e por isso coube a ela a missão de guiar e proteger os outros cegos através dos diferentes estágios pelos quais todos haveriam de passar. A diferença é que Virgílio conhecia todos os níveis infernais e os castigos aplicados àqueles que lá estavam. Já a Mulher do médico apenas contava com sua capacidade de visão e de raciocínio, não imaginava a série de horrores que lhe viriam dia após dia, já que o inferno criado por Saramago, vivido pelos cegos e por ela, nos é apresentado de uma forma intensa e crua, enfatizando que a sociedade é responsável tanto pelo inferno que cria quanto pelo paraíso que procura. Assim, os cegos de Saramago deverão reaprender a olhar o mundo, a ver cada uma das coisas que a vida lhes oferece, a enxergar o outro e auxiliarem-se mutuamente numa nova forma de vida e de comunidade.
Este sucinto artigo, ainda carente de um maior embasamento teórico, procurou, de forma parcial e modesta, descrever como Saramago, autor de Ensaio sobre a cegueira, dialoga com outros textos. Visto que, ao nosso entender, há na citada obra analogias entre os espaços infernais e ambientações apresentados por Dante em A Divina Comédia, e numa direção ideológica, sociológica e filosófica, há uma oportuna intertextualidade a partir do conflito do personagem Gregor Samsa de A Metamorfose de Kafka em que, conforme dito na introdução, expõe idéias privadas, pontos de vista particulares, mensagens e metáforas que são remodeladas e re-contextualizadas através dos personagens cegos de Saramago e nos trazem novas mensagens, sejam elas implícitas ou explícitas, para que o leitor e o pesquisador atento possam enxergar, nos labirintos literários, uma nova simbologia em que a literariedade e as ideologias se mesclam, se completam e se transformam numa nova proposição a partir de um ponto de vista superior, dialético.
Referência Bibliográfica:
ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia. Tradução de J.P. Xavier Pinheiro. São Paulo: Martin Claret, 2004.
HORKHEIMER, Max. ADORNO, Theodor W. (1973b). (org.). Indivíduo. In: Temas Básicos da Sociologia. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo, Cultrix, Ed. Universidade de São Paulo.
KAFKA, Franz. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Trad. Modesto Carone.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira, São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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