domingo, 28 de março de 2010

A COMPETÊNCIA COMUNICATIVA: FILOSOFIA E SOCIOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

"Nossa capacidade de comunicação e socialização não é medida pela forma normativa ou suntuosa de como proferimos as palavras, mas sim pela maneira como entendemos o mundo e somos entendidos."
(Andrew S. Grove)

Do ponto de vista dos estudos linguísticos e, particularmente, daqueles que refletem sobre o processo de aquisição e desenvolvimento da língua e da linguagem, a noção de competência é crucial para explicar os caminhos pelos quais o sujeito aprende a usar a linguagem e a se constituir enquanto tal. Dessa perspectiva, a competência comunicativa pode ser considerada como a capacidade de interagir em diferentes situações de interação e, portanto, de produzir e receber textos. Essa capacidade engloba pelo menos três grandes sistemas de conhecimento:


1. Conhecimentos Linguísticos: Saberes acerca das concepções filosóficas e regras estruturais de funcionamento da língua, no nível fonológico, morfológico, sintático e semântico;


2. Textuais-Pragmáticos: Saberes sociais relativos aos gêneros e tipos textuais, tanto em relação à sua configuração usual quanto ao seu funcionamento em diferentes instituições e situações de interação, bem como no que diz respeito as normas de uso da língua nas práticas comunicativas das quais emergem os falantes e os textos;


3. Conhecimentos Referenciais: em outras palavras, percepções, experiências e saberes sobre o mundo.


Quando jovens e adultos chegam à escola, já construíram inúmeros conhecimentos lingüísticos, textuais, pragmáticos, referenciais, e já tiveram acesso, na produção e na recepção, a diferentes gêneros textuais. O que desconhecem, fundamentalmente, e muitas vezes não completamente, é o código da escrita alfabética. Se tiverem a oportunidade de começar a descobrir esse código por meio de procedimentos que lhes oriente no estabelecimento de relações entre o que já sabem e aquilo que estão aprendendo, então, tudo fica mais fácil, até porque se tem a oportunidade de qualificar positivamente as ações de linguagem que habitualmente realizam, ou seja, sua experiência social e cotidiana com a linguagem.


A preparação linguística textual


A preparação linguística textual consiste em tomar como unidade básica, ou seja, como objeto particular de investigação, não mais a palavra ou a frase, mas sim o texto, por serem os textos a forma específica de manifestação da linguagem. Se nossa pretensão, como professores, é fazer o aluno ler melhor para levá-lo a uma boa escrita, deve-se observar os textos atuais, com estratégias adequadas às mais prováveis circunstâncias comunicativas dos alunos, o que nos leva a não incluir textos elaborados ou fragmentos, e metodologias que se refiram a outros momentos históricos, pois as estratégias seriam dificilmente repetidas pelos leitores atuais.


Devemos considerar também a estratégia de apresentação do texto. É melhor optar pela apresentação progressiva do texto, pois a organização dos sucessivos segmentos que o compõem permitem uma observação melhor das qualidades e dos defeitos da estrutura textual, pois aparecem de modo mais claro. Essa estratégia tem por objetivo também motivar de modo mais intenso, por parte dos estudantes, a função de interpretar o texto. Há uma grande importância no desenvolvimento da leitura e compreensão de textos para determinação atuante no que diz respeito à vivência social, política e cultural do indivíduo: a compreensão das mensagens verbais e não-verbais sob a visão conseguinte de uma era que corre velozmente e proporciona uma cultura múltipla que exige, cada vez mais, do indivíduo um entendimento e uma habilidade política, uma competência técnica e um bom desempenho lingüístico. Assim, a criatividade e a sensibilidade são privilégios dos homens que conseguem perceber um universo externo. Cada pessoa possui uma representação interior de memórias associativas, de pensamentos e linguagens simbólicas. A experiência de viver dá origem às potencialidades criativas dos homens, dando formas expressivas à linguagem verbal e a não-verbal.


Ao trabalhar o texto, os alunos não só desenvolvem a interpretação, mas também adquirem a compreensão de sua funcionalidade diante da variação de potencialidades de ocorrências representativas de acordo com sua relação com a identidade do que está representado. O caráter infinito da linguagem constitui o sistema das palavras criadas para expressarem num instante "mágico" as emoções sentidas através da escrita e da fala, sendo importante ressaltar o valor da produtividade do discurso e o valor das atividades propostas em que o aluno tenha sempre que redigir para expressar o seu conhecimento do mundo.


A temática apresentada no texto, também é um dado muito significativo na questão da interpretação, pois sabemos que a caracterização é da ciência e não do objeto. Assim a adequação temática do texto não é tão importante quanto o questionamento proposto sobre o conteúdo. Portanto, discute-se os novos rumos do ensino da língua portuguesa no sentido de buscar a interdisciplinaridade explorando a relação significado, significação, sentido e posição discursiva. Desta maneira, considerando a posição comunicativa, centrada no entendimento estrutural e social da língua portuguesa como língua materna e nacional, desaprovamos as nefastas consequências políticas e sociais do ensino meramente gramaticalizado que, enfatizando de forma arbitrária a nomenclatura dos termos, não serve de instrumento para o estudante manter uma eficiente competência comunicativa.


Diney Vasco


Referências:

AGUIAR, Vera T. de & BORDINI, M.G. A formação do leitor: alternativas metodológicas. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1988.

FÁVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais. São Paulo, Ática, 1991.

FIORIN, José L.(1996). Lições de texto. São Paulo: Ática.

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