sábado, 13 de março de 2010

OS LIMITES COGNITIVOS DA SOLETRAÇÃO PARAGRAMATICAL

"a educação necessita de um acervo cultural. E esse acervo só é permitido quando a escola sair dos métodos curriculares tradicionais, usados pelos jesuítas, e partir para os novos métodos de reflexão e criação." (IMBERNÓN, 2000, p. 49)

Quem é que não se lembra de já ter visto, pela televisão, em vários programas de auditório um simpático cachorrinho que, ao reconhecer a voz do domador pronunciando certa palavra, buscava com a boca, em uma sequência exata, todas as plaquinhas com as letras que formavam a palavra ou então o resultado correto de uma equação matemática?

Tal procedimento metodológico de condicionamento não tem segredo: o cão é apenas treinado e incentivado, de forma incisiva e até mesmo com maus tratos, a aprender os comandos (as palavras) e fazer uma assimilação e busca ordenada às placas, que também ficam em posições estratégicas, contendo os símbolos gráficos que formam ortograficamente ou numericamente o comando ouvido.

Ivan Pavlov (1849 - 1936), um célebre médico russo do início do século XX, fez a experiência de alimentar cães ao som de uma música determinada ou ao toque de uma sineta; posteriormente, ao ouvirem apenas a música ou o barulho da sineta, suas cobaias reagiram com secreção de saliva e de sucos gástricos; em suma, salivavam. Pavlov provou, por meio desse experimento, que os cães desenvolvem comportamentos em resposta a estímulos ambientes, podendo tais comportamentos serem explicados sem que se precise entender o que se passa no plano mental ou psicológico. Foi uma das primeiras abordagens realmente objetivas e científicas ao estudo da aprendizagem, principalmente porque forneceu um modelo que podia ser verificado e explorado de inúmeras maneiras . Essas conclusões deram material ao behaviorismo para afirmar que o ser humano aprende essencialmente através da reprodução dos comportamentos dos outros, e que nossas ações e mesmo a formação cognitiva são meras respostas ao ambiente externo.

Um sistema análogo tem acontecido com jovens estudantes em programas importados e "paragramaticais" do tipo SOLETRANDO, no qual os altos custos dos royalties pagos à uma empresa estrangeira, criadora do programa e detentora dos direitos autorais, são oriundos de patrocinadores: empresas capitalistas, cujo último interesse é educação popular. Esses precoces estudantes são incentivados e condicionados - pelas escolas e, principalmente, por professores com falta de conteúdo, falta de criatividade ou inepta metodologia de ensino, - a decorarem automaticamente palavras e a tecnicamente soletrá-las, não no sentido utópico de se tornarem "especialistas lexicais" e dominarem todo o conjunto vocabular da língua portuguesa e todas as suas variantes, já que em muitas das vezes esses estudantes nem sabem o real significado e o uso situacional-semântico das palavras que soletram, mas com um único é exclusivo objetivo: participar de uma competição, cujo real interesse (organizacional e participativo) é meramente mercantilista e publicitário; todavia, ambos apropriam-se de uma falaciosa justificativa socioeducacional, amplamente enfatizada e ideologizada, de que o evento é, em sua essência, um “incentivo aos estudos e uma contribuição à educação”. No fundo, é realmente uma contribuição à educação, mas à educação nos moldes capitalista de ser, ou seja, uma educação centrada em formar mão de obra barata (força de trabalho) e esta força, no capitalismo, se volta para o desenvolvimento de apenas algumas capacidades necessárias para o processo de produção e reprodução da desigualdade social, em detrimento de diversas outras, criando um ser humano limitado quanto à crítica e reflexão. Assim, a educação capitalista procura domesticar possíveis pensadores e contestadores do atual sistema e, desta forma, condiciona-os, visando um preparo técnico, mecânico e disciplinar a ser usado como força de trabalho no processo de produção capitalista.

A formação de um sujeito pensante, crítico e reflexivo se dá por outro viés e através de outras esferas epistemológicas, dentro das quais se exerce uma atividade minuciosa no processo de aquisição de conhecimentos, assim como a assimilação e filtração dos conteúdos, e não por técnicas tradicionalistas, arcaicas e reacionárias em que alunos, não pelo prazer do conhecimento, mas por uma imposição ideológica introjetada no âmbito social e escolar por uma mídia comercial, sentem-se coagidos, pela própria lógica da competição, a aceitarem ideias dominantes e justificarem, de forma preconceituosa, a habilidade de soletrar (sem conteúdo e fins práticos) como algo natural e imprescindível ao processo de "aquisição e ensino-aprendizagem" da Língua Portuguesa, assim como o desenvolvimento cognitivo e formação do cidadão consciente através da educação.

E assim, por meio dessa lógica e falsa consciência, os estudantes ficam como os peixes, que nunca fazem reflexões sobre a água e, por isso, não sabem nada do que lhes cercam, contribuindo de forma fetichizada e alienada para a manutenção da atual situação social e do Status Quo da classe dominante, pois, estes jovens são impedidos (de forma proposital pelas escolas, pelos professores despreparados e pela mídia burguesa) de serem criativos, de analisarem, pensarem e repensarem a sociedade em que vivem e o mundo em sua totalidade. Mas, infelizmente, não é isso o que acontece (pensar, refletir, criticar), já que essas futuras esperanças, de transformação social e abolição da exploração, estão “habilmente” ocupadas S-O-L-E-T-R-A-N-D-O palavras, de forma técnica e mecânica, idem ao simpático cachorrinho.

Diney Vasco

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