sexta-feira, 22 de outubro de 2010

POR QUE MACHADO DE ASSIS VOTARIA NO SERRA?

"Machado de Assis tem sido elogiado, mas não tem sido estudado." (Silvio Romero, 1936)

"(...) o mito, rico de antítese e contrastes, que a consciência coletiva do Brasil ainda não abandonou totalmente. Talvez o Brasil tivesse necessidade, então, desse mito." (Jean-Michel Massa, 1971)


Uma das imagens mais defendidas e propagadas pela imensa maioria dos agentes da "esfera artística" (VIANA, 2007a), os apologistas e estudiosos machadianos, é de ser ele um crítico sagaz e irônico da sociedade burguesa de sua época. Essa afirmação é muitas das vezes “legitimada” em função de Machado de Assis “possuir um espírito vingativo” em relação à classe dominante, motivado pelos infortúnios da “pobreza e sofrimento” durante sua infância e juventude. Tais fatos sobre a pobreza e o sofrimento que geraram essa “posição crítica vingativa” estão relatados, de forma implícita ou explícita, em praticamente toda a sua "ilusão biográfica" (BOURDIEU, 2002) e são utilizados como referencial teórico em inúmeros textos.

Assim, o processo de construção da “fetichização machadiana” (BOURDIEU, 1996) centra-se, principalmente, nas análises feitas pelos muitos críticos que estudaram Machado de Assis e nunca deixaram de inventariar e realçar quais as causas eventuais, quais os motivos que alavancaram seus “poderes mágicos”, sendo a resposta da maioria justificada em função de uma especulação biográfica que tem em vista o tormento social e individual, padecido pelo artista: pobre, cor escura, doenças, humilhações, etc. Todavia, conforme alerta Antônio Candido, “não exageremos, portanto, o tema do gênio versus destino. Antes, pelo contrário, conviria assinalar a normalidade exterior e a relativa facilidade de sua vida pública” (CANDIDO, 1995, p. 18).

Ainda, segundo Antonio Candido (1995, p. 17), depois dos estudos renovadores de Jean Michel Massa (1971), é difícil manter o mesmo ponto de vista sobre as causas eventuais de “tormento social e individual” que afligiram a vida de Machado de Assis:

"Por ignorância, falseou-se o quadro em que Machado de Assis veio ao Mundo e onde viveu os dez primeiros anos de sua vida. Na estrutura das classes que então constituíam o Brasil, os Machados de Assis não se achavam situados embaixo na escala social. O seu nível era mesmo relativamente elevado. (...) Em linguagem moderna se pode dizer que esta família, pela sua cultura, pela sua atividade, se bem que proletária pela sua condição, como os caixeiros, representa a pequena burguesia." (MASSA, 1971, pp. 59-60)

Outra justificativa dos estudiosos é que se Machado de Assis fosse, de fato, um conservador e compactuasse com a ordem social vigente, ele descreveria a elite brasileira por outro ângulo e não desvendando suas futilidades, o cinismo, a amoralidade e outras mazelas da classe dominante. Todavia, quem defende tal posição não entende que se Machado de Assis descrevesse a burguesia com características ilibadas e humanísticas (liberdade, fraternidade e igualdade) não estaria “expressando figurativamente a realidade” (VIANA, 2007), mas sim produzindo uma literatura de cunho fantástico (sobrenatural). Nesse sentido, e segundo Eagleton (1976), “uma nova perspectiva exige uma nova interpretação”, entendemos que há sim em Machado de Assis uma crítica à classe dominante, todavia é uma crítica inerente aos interesses pessoais e contraditórios em torno da própria classe dominante, e não uma contestação em defesa da classe oprimida.

"Os ortodoxos e heterodoxos realizam uma competição em torno da hierarquia e prestígio na esfera artística e, quando parecem romper com a burguesia, é para declarar sua nobreza e autonomia, ou mesmo para denunciar a mediocridade cultural desta." (VIANA, 2007a, p. 101)

Ou seja, os costumes ironizados, caracterizados como crítica machadiana à classe dominante, constituíam-se apenas de inspiração editorial extraída dos comportamentos privados e atitudes da classe burguesa, da qual ele fazia parte. Tais costumes e atitudes, aparentemente “secretos”, eram motivos de confabulações nos eventos sociais, nos encontros em cafés, barbearias, etc., sendo depois, em determinado momento, “institucionalizados” oficialmente à esfera pública através dos seus personagens nos romances sequenciados em revista e jornais familiares. Resultando, assim, no sucesso imediato dos romances em folhetins, principalmente pelo público feminino:

"Como traço importante, devido ao seu desenvolvimento social do Segundo Reinado, mencionemos o papel das revistas e jornais familiares, que habituaram os autores a escrever para um publico de mulheres, ou para os serões onde se lia em voz alta. Daí um amaneiramento bastante acentuado que pegou em muito estilo; um tom de crônica, de fácil humorismo, de pieguice, que está em Macedo, Alencar e até em Machado de Assis. Poucas literaturas terão sofrido, tanto quanto a nossa, em seus melhores níveis, esta influência caseira e dengosa, que leva o escritor a prefigurar um público feminino e a ele se ajustar." (CANDIDO, 2000, p. 85)

Para Candido (2000, pp. 85-86), os escritores desse período se habituaram a escrever para um público feminino, simpático, porém restrito, e a contar com a aprovação dos grupos dirigentes, igualmente reduzidos. Assim, esta circunstância, ligada a uma esmagadora maioria de iletrados, nunca permitiu aos escritores dessa época um diálogo efetivo com a massa ou com um público de leitores suficientemente vastos que pudessem substituir o apoio e o estimulo de pequenas elites. E ao mesmo tempo, a pobreza cultural desta pequena elite nunca permitiu a formação de uma literatura complexa, de qualidade rara, salvo as devidas exceções. É a partir desse processo (dentro das limitações apontadas) que surge o êxito de todo escritor de raro talento, apesar de muita demagogia romântica dizer o contrário.

Assim, Machado de Assis, como integrante e representante burocrata da elite burguesa, já que sua formação social, intelectual e cultural sempre o manteve distante das classes oprimidas (RYAN, 2006, pp. 395-396), apenas descreveu e propagou, em sua obra, a realidade social a partir dos seus valores, ou seja, os valores dominantes e, como característica original e peculiar de seus textos, utilizava-se da ironia e do humor como forma de expressão burlesca para satirizar comicamente pessoas e fatos próximos, de uma maneira que os seus leitores se deliciavam ao perceberem no texto a vida do vizinho, mas não a própria. E, uma vez que seu público era delimitado a uma pequena elite letrada, apenas riam-se dos costumes burgueses, pois as ironias e sarcasmos presentes em seus textos não caracterizavam nenhum tipo de crítica que poderia aludir à uma conscientização ou transformação em favor da classe oprimida daquela sociedade.

Por isso, seu talento para escrever, mas, principalmente, seu pertencimento à classe dominante (mentalidade, valores e interesses), foram os elementos que lhe garantiram a hierarquia literária, o status e a “efetivação” como o maior gênio da literatura brasileira, uma vez que suas obras são utilizadas, ideologicamente, como padrão de “literatura superior”, servindo para distinguir entre “cultos” e “incultos”, seja no estilo, na estética, na forma, ou como padrão normativo gramatical e ortográfico, e ainda como um parâmetro de “qualidade” para produções e avaliações que favorecem somente aos “especialistas detentores do gosto e do saber literário”, ou seja, valores que correspondem aos interesses da classe dominante e servem apenas para regularizar as relações sociais. Assim, por detrás de uma irredutível e mágica condição de “gênio-criador”, imposta aos meios escolares e acadêmicos, uma vez que não se trata de nenhum “encanto eterno” e sim de possibilidades valorativas de interpretação, muitas das vezes revelando um preconceito cultural e social aos considerados “incultos”, e assim reproduzindo ideologias em função dos valores e interesses dos “especialistas” que avaliam (provocando deformação) de acordo com suas necessidades atuais (VIANA, 2007a).

Desta forma, Machado de Assis, como artista conservador e representante simbólico da elite cultural burguesa, defenderia os valores dominantes dos quais ele próprio é elemento e ícone de "valoração cultural" e "regulação intelectual" e, assim, manteria sua referência erudita e posição social de Gênio-criador no topo da hierarquia literária brasileira, em detrimento das "incultas" manifestações literárias populares.

Nesse sentido, conforme o seu conservador tédio à controvérsias: "Não te envolvas com polêmicas de nenhum gênero, nem poéticas, nem literárias, nem quaisquer outras... o pugilato das idéias é muito pior do que o das ruas.", palavras manifestadas através do seu personagem Conselheiro Aires, Machado de Assis não contestaria quais são as relações políticas de poder que fomentam a redução das desigualdades sociais e, assim, à mercê das elites dominantes cravaria seu voto em Dom José Serra.

Diney Vasco

Referências Bibiográficas:

BOURDIEU, Pierre. A regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (orgs.). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2002.

CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Estudos de teoria e história literária.São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.

EAGLETON, Terry. Marxismo e Crítica Literária. Porto: Edições Afrontamento, 1976.

MASSA, Jean-Michel. A juventude de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1971.

RYAN, Marco Aurélio. Machado de Assis: um retrato materialista do Brasil. In: A OBRA de Machado de Assis. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2006. Ensaios premiados no 1º Concurso Internacional Machado de Assis.

VIANA, Nildo. A Filosofia e sua sombra. Goiânia: Edições Germinal: 2000.

VIANA, Nildo. A Esfera Artística: Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007a.

VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007b.

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