sábado, 16 de junho de 2007

QUEBRANDO A MATRIX - QUAL PÍLULA VOCÊ QUER?


Morpheus:
Você quer tomar a pílula vermelha e ver a realidade ou a pílula azul e continuar na ilusão?
Neo: Ainda não sei!
Morpheus: Sr. Anderson, Liberte sua Mente!

(The Matrix - Warner Bros, 1999.)


A sociedade pós-moderna caracteriza-se, de certa forma, tanto na indicação à ordem quanto no comprimento às normas de conduta, como a sociedade da ILUSÃO. Tomamos por embasamento a mega-metáfora subliminada na trilogia cinematográfica Matrix como uma realidade - no sentido etimológico e amplo da palavra - hodierna e cotidiana vivida por todos nós, porém, sentida e discernida por poucos. Basta prestar atenção. E não são máquinas "maquiavélicas", inteligentes e futuristas que trancafiam nossos corpos dormentes e entorpecidos em casulos gosmentos rodando Sistemas Operacionais com Inteligência Artificial onde os humanos imaginam que vivem num mundo de verdade, mas que no fundo servem apenas como baterias, fontes de energia para as máquinas. Vivemos também em um sistema análogo à Matrix, um campo de espetáculo que nos distrai e impede que vejamos com clareza a REALIDADE.


É fácil e cômodo manter um rebanho de carneirinhos. Dóceis, todos se mantêm na mais absoluta ordem em troca de um mínimo de "segurança" oferecida pelo bom pastor e pelos cães de guarda, que afastam os riscos de um ataque dos lobos. Todavia, os cães e os lobos são irmãos & Sócios. Essa "segurança" imperiosa, vendida e alienada é conseqüência direta do temor gerado. Em outras palavras: Cria-se uma demanda agregada e global, e a seguir oferece-se uma solução para supri-la. Essa pseudo-segurança, no entanto, tem um alto preço: A liberdade de pensamento e ações passa a ser apenas um conceito inefável e limitado às regras em que bilhões de pessoas pensam que a realidade é apenas aquilo que lhes foi imposto ao longo da vida, que a realidade são apenas as informações noticiadas e anunciadas. Então continuam na mesmice tradicional, alienados, presos e escravos do dia a dia, arrastados pela multidão a mercê das mídias-das-massas controladas pelo pastor e pelos cães.


O individuo, da mesma maneira, inexiste completamente. Ao invés da pluralidade de diferenças, cores, raças, credos, matizes que enriquecem, ou deveriam enriquecer a espécie humana e a sociedade que ela compõe, um "Manto Massificador" cobre tudo e todos. O brilho diverso e a surpresa da descoberta de um novo ponto de vista no meio do caleidoscópio são mascarados pela unanimidade cinzenta, alienada, consumista e autofágica. Ou, ainda, pela imposição sistemática de pretensos dogmas ideológicos e, ou religiosos. Empiricamente são os mesmos preceitos e idéias preconcebidas dantes mencionadas por Platão em sua "alegoria das cavernas" do livro VII, inserido na sua obra "A Republica".


Mas, ironicamente, são exatamente algumas "ovelhas negras" que vêm quebrar a monotonia, ou seja, quebrar a Matrix, expurgar a massificação, reacender o brilho da diversidade. Sem se render a nenhum absolutismo, abertas ao conhecimento, à pesquisa, aos estudos e sedentas por novos horizontes. São essas "ovelhas negras" que se negam a contribuir e alimentar o monopólio burguês e massificante. Contra as regras sujas que vêm de cima para impor uma realidade injusta e baseada unicamente na competição, resgatam-se os princípios do consenso, fala-se e discute-se mais, abrem-se as portas do colaborativismo, re-humanizam-se as relações. Abominam-se as falsas e demagogas hierarquias centralizadoras, pulveriza-se o verdadeiro e legítimo poder entre nós, o poder comum que mantêm a teia unida e cada vez mais forte. Em função disso, faz-se necessário ter ciência que:


1º - O que somos é a conseqüência do que pensamos e agimos;
2º - A mente é a senhora dos sentidos. Daí, a necessidade de disciplinar a nossa mente;
3º - A vitória sobre si mesmo, é a maior de todas as vitórias;
4º - O Eu é o mestre do Eu, mais ninguém;
5º - O conhecimento libertário e útil só pode ser adquirido pela prática. Estude, estude muito;
6º - A vitória sobre o outro gera ódio porque o vencido sofre. Aquele que é feliz só busca a vitória sobre si mesmo;
7º - O mundo é algo incerto e perigoso, mas você é quem traça o seu próprio caminho;
8º - Não acredite em algo simplesmente porque ouviu dizer, nem na fé das tradições, pois foram transmitidas de geração a geração, por homens tão fracos quanto você;
9º - A Sabedoria e a Iluminação só vêm depois de muito sofrimento;
10º - A vida é efêmera e viver também é sofrer. Por isso, a vida é magnífica e tem sentido.


Porém, quando a vida estiver chegando ao fim, todas as alienadas "ovelhas" verão que tudo o que sempre quiseram, fizeram, construíram, planejaram e executaram, não passaram de ordens... Então perceberão que a luta das "ovelhas negras" não era em vão, mas sim solitária contra um sistema injusto e egoísta... Perceberão que vida totalizante e satisfeita para alguns não existe, pois, mesmo com todas as adversidades, ainda é válido e regozijante tentar trazer à luz e querer abrir os olhos de quem está inserido no mundo ilusório e capitalista do senso comum. Pode-se, então, optar pela pílula azul ou pela pílula vermelha. Feita a opção, responsabilize-se pelos efeitos da sua pílula, ou então recolha-se à "segurança" do rebanho.
E então? Você quer a pílula VERMELHA ou AZUL?


Diney Vasco


Bibliografia:

ASIMOV, Isaac. Eu, Robô. São Paulo: Ediouro, 2004.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
GROF, Stanislav. Além do Cérebro – Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia. São Paulo: McGraw-Hill, 1988.
IRWIN, William. Matrix – Bem-vindo ao Deserto do Real. São Paulo: Madras, 2002.
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Nacional, 1980.
OS PENSADORES. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
PLATÃO. A República de Platão. São Paulo: Sapienza, 2004.
YEFFETH, Glenn e outros. A Pilula Vermelha – Questões de Ciência, Filosofia e Religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003.

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